Um olhar para a Pessoa com deficiência no viés das Inteligências Múltiplas.

Um olhar para a Pessoa com deficiência no viés das Inteligências Múltiplas.

Conexão com especialista #06 – Mágda A. Mazini de Almeida​

A educação contemporânea explicita a perspectiva democrática na defesa do direito de todos os alunos ao acesso e permanência na escola. Embasado neste pensamento, entende-se que um ensino aprendizado, de sucesso e para todos, deve ser adaptado. Ainda alinhado a esse pensamento a ideia de que trabalhar de forma homogênea, sem pensar nas individualidades, habilidades, potencialidades, assim como conhecimento prévio, que cada indivíduo tem já não mais cabem no cenário atual.  

Pessoas com deficiência no decorrer da história foram segregadas e excluídas por um longo tempo, onde se entendia que eram possuidoras de demônios, pessoas com anomalias e não deveriam assim, pertencer à sociedade. Com o passar dos tempos começam a serem vistas como doentes, que necessitam de cuidados e assim integradas àsociedade. Mas só com a chegada de Helena Antipoff, fundadora presidente da Sociedade Pestalozzi dedicada à educação especial, em 1932 no Brasil, que as Pessoas com deficiência começam a serem incluídas (Campos, 2003). A inclusão ganha grande força com a declaração de Salamanca de 1994, onde o governo da Espanha realizaparceria com a UNESCO para nortear caminhos e atitudes para se desenvolver uma educação de qualidade para todos os indivíduos.

A inclusão já ultrapassou barreias, atualmente o deficiente começa a ter voz. Ilustrando essa afirmativa, durante este artigo, a referência a Pessoa com deficiência apresenta-se com a escrita de Pessoa com “P” maiúsculo e deficiência com “d” minúsculo, atendendo a uma solicitação do movimento de auto defensores das APAE do Brasil, onde os deficientes colocam que a Pessoa é mais importante do que a deficiência que tem, assim, Pessoa vem com “P” maiúsculo e deficiência que é uma condição em minúsculo.

Muitas leis hoje amparam o deficiente, como a lei de inclusão Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015, que visa o direito a inclusão e a cidadania. Mas mesmo com o avanço referente à inclusão do deficiente ainda tem-se muito que caminhar para a efetivação do real sentido de incluir.

A educação necessita buscar, refletir acerca do que é adaptação curricular, plano de desenvolvimento individual, entre outros, para assim trabalhar as limitações do deficiente, mas com foco voltado as suas potencialidades, que é o ponto de partida, para o sucesso da inclusão.

Ao citar potencialidades como fio condutor de sucesso na inclusão, entende-se que cada indivíduo possui habilidades e potencialidade particulares para seu desenvolvimento intelectual, psicológico e de convivência (Aranha, 2002). Voltado para esse pensamento e através de experiências vivenciadas apostamos na utilização das inteligências múltiplas de Gardner para o trabalho com a Pessoa com deficiência.

Howard Gardner, professor de psicologia e estudioso americano, participou junto com uma equipe de pesquisadores na universidade de Harvard, em 1979 da investigação da natureza e realização do “Potencial Humano”. Tinha-se a intenção de estudar os talentos internos das crianças, principalmente os rotulados com incapacidade de aprender.

Como fruto de sua pesquisa, em 1983, Gardner publicou a obra sobre a teoria das  inteligências múltiplas.  O pesquisador propôs a existência de pelo menos sete inteligências básicas. São elas: a Inteligência Linguística, Inteligência Lógico-matemática, Inteligência Espacial, a Inteligência Corporal-sinestésica, a Inteligência Musical a Inteligência Interpessoal e a Inteligência Intrapessoal.

Para o pesquisador, todas as pessoas possuem as sete inteligências pesquisadas por ele, embora cada tipo de inteligência seja mais desenvolvido em algumas pessoas do que em outras.

Segundo Gardner, (1995) existem lesões cerebrais, no ser humano, que podem prejudicar determinadas inteligências e, consequentemente, limitar algumas capacidades.

Assim a teoria desenvolvida por ele, apresenta uma grande possibilidade de um trabalho de sucesso com Pessoas com deficiências.  

O educador, quando oportuniza o uso das inteligências múltiplas, oferta ao aprendiz à oportunidade de aprendizado através de uma inteligência, ou mais que possui e até mesmo desenvolve outras que ainda não afloraram. Não é diferente com a Pessoa com deficiência. Acredita-se que a Pessoa com deficiência quando oportunizada a responder embasada em uma inteligência que apresenta consequentemente conseguirá com mais facilidade e até mesmo motivação o sucesso na resposta.

O ensino deve ser igualitário, respeitando as individualidades e promovendo adaptações, mas nunca desigual o que caracterizaria exclusão.  

A meta da inclusão é, desde o início, não deixar ninguém fora do sistema escolar, que deverá adaptar-se às particularidades de todos os alunos (… ) à medida que as práticas educacionais excludentes do passado vão dando espaço e oportunidade à unificação das modalidades de educação, regular e especial, em um sistema único de ensino, caminha-se em direção a uma reforma educacional mais ampla, em que todos os alunos começam a ter suas necessidades educacionais satisfeitas dentro da educação regular (MANTOAN, 1997, s/p).

Ensinar e aprender de forma realmente inclusiva, respeita as individualidades e promove potencialidades. A teoria das inteligências múltiplas desenvolvidas por Gardner afirma que possuímos capacidades diferentes e várias inteligências para criar, resolver problemas, e também contribuir no contexto social.  

As inteligências múltiplas se apresentam como uma ferramenta de mudança para o ensino aprendizado, principalmente de Pessoas com deficiência, vem com a proposta de  um processo de ensino aprendizagem mais significativo, onde habilidades são respeitadas e potencialidades desenvolvidas. Afirma que todos são capazes de aprender e que a diferença esta em como ensinar, em como ofertar aprendizagens e também em respeitar limitações, sem desviar o olhar das potencialidades.

A Pessoa com deficiência é capaz de aprender e de participar ativamente do contexto social desde que oportunizada a vivências e convivências e se estas forem inclusivas.

Pode-se concluir então que o trabalho realizado com uma criança e ou jovem com deficiência terá mais eficácia quando é oportunizado este aprendizado através da teoria das inteligências múltiplas, onde o ponto forte da pessoa é o ponto de partida para desenvolver um pensamento construtivo.

Vamos ressignificar nosso olhar acerca da Pessoa com deficiência? Vamos oportunizar realmente conhecimento significativo?

Refletir se estou sendo um mero expectador de tudo isso, ou se estou sendo protagonista dessa história começa com o primeiro passo!   Então fica um convite para sermos protagonista e darmos um passo em direção a novos olhares, atitudes, e pensamentos.

Referencias:

ARANHA, Maria Lúcia A. R. Desenvolvimento da criança na creche. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

BRASIL, Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13146.htm>. Acesso em 02 de abril de 2021.

CAMPOS. Regina Helena de Freitas. Helena Antipoff: razão e sensibilidade na psicologia e na educação. 2003. Disponível em <  https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142003000300013> acesso em 02 de abril de 2021.

DECLARAÇÃO DE SALAMANCA: Sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais. Salamanca–Espanha, 1994

GADNER. H. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

MANTOAN, Maria Tereza Egler. A Integração de Pessoas com Deficiência: Contribuições para uma Reflexão sobre o Tema, São Paulo, Memnon, 1997.

Mágda A. Mazini de Almeida é Pós-graduada em Educação Especial com ênfase em deficiência mental e em Pedagogia Empresarial. Atua como docente nas Faculdades Integradas de Cataguases e como pedagoga na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais-APAE de Cataguases. http://lattes.cnpq.br/1516320046435271