O impacto da pandemia na aquisição do desenvolvimento da linguagem e fala da criança

O impacto da pandemia na aquisição do desenvolvimento da linguagem e fala da criança

Conexão com especialista #37

Nós humanos somos seres sociais e nos desenvolvemos a partir do convívio com o outro. Para entendermos os impactos da pandemia no desenvolvimento da linguagem na criança será de grande importância separamos didaticamente linguagem e fala. O desenvolvimento da linguagem tem como pré requisito o desenvolvimento Sensorial, isso significa que a criança aprende vivenciando. Para aquisição da linguagem necessitamos de cinco domínios: Semântica – Diz respeito ao sentido das palavras (símbolo e significado). Sintaxe – Formas e regras que as palavras possuem. Morfologia – Como as palavras são formadas. Fonética e fonologia – Sons da língua, no caso do Brasil, os fonemas em português. Pragmática – Uso social da língua.

Como podemos perceber a aquisição da linguagem requer muitas habilidades e é algo muito complexo. Alterações em qualquer um desses domínios pode ser alertas para características de: Síndromes, TEA (Transtorno do Espectro Autista), Pré – maturidade e outras infinitas possibilidades genéticas e adquiridas.

A fala diferente da linguagem é um ato motor que acontece na cavidade oral se utilizando de musculaturas de lábios, língua e bochechas e do ar sonorizado que vem das pregas vocais. Habilidades de sucção, respiração, mastigação, e deglutição são também pré- requisitos para que fala aconteça. Quando a criança tem dificuldades em articular fonemas dizemos que possui um problema de fala.

Sabemos que a fala e linguagem se completam visto que o ato motor de falar sem que haja contexto linguístico é considerado defasagem no desenvolvimento. São marcos do desenvolvimento da linguagem: 

– 01 ano de idade a criança reconhece e imita sons

– 02 anos fala frases curtas e tem maturidade para pronunciar 200 palavras 

– 03 anos é possível entender tudo que ele fala, mas as vezes conjuga errado

– 04 anos já inventa estórias e compreende regras simples de jogos

– 05 anos a criança tem maturidade para falar corretamente

Defasagem nestes marcos é indicado que a criança passe por uma avaliação fonoaudiológica. Em muitos casos a orientação e adequação da rotina da criança é suficiente para que ela prossiga e se desenvolva sem terapias. Não podemos aceitar como certeza única que cada criança tem seu tempo. Que a fala acontecerá, que terá seu “clic”, não é mágico assim, vimos toda a complexidade para aquisição da linguagem e esperar por “clics” podem gerar atrasos significativos.

Qualquer sinal e dúvidas no desenvolvimento da linguagem procure ajuda de um fonoaudiólogo. Com a pandemia veio o isolamento social e as crianças foram privadas do desenvolvimento sensorial adequado. Não havia mais as idas nas pracinhas, festas infantis, escolas e creches, idas na casa dos avós e convívio com outras crianças. O ambiente visual, auditivo e sinestésico ficou restrito o que dentro de casa lhe proporcionada. Muitas vezes os pais estavam presentes fisicamente, mas com o trabalho remoto a atenção a criança era responsabilidade do irmão mais velho e muitas vezes às telas.

Nesse período de confinamento podemos ressaltar que muitas vezes a televisão e o celular foram as “babás” das crianças já que os pais precisam trabalhar e não tinham a experiencia prática de quanto a tela poderia ser tão nociva. Outra observação que merece destaque se refere às crianças que pós pandemia foram retiradas 100% do uso de telas e conseguiram se reajustar com os suportes sensoriais e afetivos dos pais, após orientação profissional.

Uma frase que representa esse momento da interação exagerada com as telas na vida infantil é: “A tela está para a linguagem assim como a bala está para nutrição. Distrai, mas não alimenta”!Tem sido muito discutido se as crianças estão tendo mais atrasos de linguagens ou se os pais por estarem mais tempo com a criança, perceberam mais esses atrasos. Minha experiência clínica e relatos de vários colegas tem demostrado um aumento significativo de crianças com atraso de linguagem pós-pandemia. Muitas delas chegam ao consultório com hipóteses sugeridas pelos pais de TEA – Transtorno do Espectro Autista por possuirem características semelhante as do Transtorno. Pais, e mais comumente mães chegam apavoradas com as informações sempre muito semelhantes. – Meu filho não fala nada, tem pouco contato visual, seletividade alimentar, andam na ponta do pé e não respondem quando são chamados. O diagnóstico diferencial para TEA precisa ser feito por uma equipe interdisciplinar contando com Neuropediatra, Fonoaudiólogo, Fisioterapeuta, Terapeuta Ocupacional e Psicólogo. O isolamento social e suas privações somando ao uso de tela tem levado muitas crianças a um atraso de linguagem e sendo confundidas erroneamente com TEA. Muitos estudos estão sendo realizados sobre os efeitos na pandemia no desenvolvimento global da criança, mas como bem sabemos não temos matérias suficientes para artigos seguros.

É necessário que em meio à uma pandemia sejamos prudentes mas que não deixemos de nos preocuparmos com a forma de desenvolvimento que estamos proporcionando as nossas crianças. As incertezas não podem ser maiores que a necessidade de fazer o estímulo acontecer. Seja dentro de casa com brincadeiras direcionadas ou com brincadeiras por simplesmente brincar. Lembre-se sempre que sua criança aprende por imitação. Olhe em seus olhos, abaixe-se para falar com ela, articule bem as palavras, sorria e aprove cada conquista. Crie um ambiente que favoreça um desenvolvimento saudável e eficaz dentro ou fora de confinamentos.

 

Valeria Siqueira, CRFa 6 620 MG

Fonoaudióloga pelo IBMR – RJ

Pós graduada em Psicomotricidade pela UCAM – RJ

Pós graduando em Autismo em UNIFAGOC -MG

Pós graduando em ABA UNIFAGOC MG

Pós graduando em Neuropsicopedagogia pela UNILINS- MA Aperfeiçoando em Fga Larrissa Lemos- Brasilia – DF