Humanização das experiências sociais como forma de empoderamento da mulher

Humanização das experiências sociais como forma de empoderamento da mulher

Conexão com especialista #20 – Bianca Costa Medina

O feminismo, cujo surgimento data das últimas décadas do século XIX, nasce principalmente pela inquietude diante da identidade sexual generalizada, explicitada anatomicamente, mas que carregava consigo as marcas das diferentes sociedades e culturas (PINTO, 2010; SARTI, 2004). No Brasil, o movimento surge em meados do século XX e pode ser compreendido a partir da divisão de três momentos: o primeiro caracterizado pelomovimento sufragista, liderado por mulheres de classe média/alta; o segundo momento, na década de 70, é conhecido pela oposição à ditadura militar, bem como pela militância contra a dominação masculina, a violênciasexual e a busca pela liberdade sexual; por fim, o terceiro momento, que ficou marcado pelo aperfeiçoamento do movimento feminista, pelas tentativas de reforma do Estado e instituições democráticas e a reconfiguração do espaço público através da visibilidade às mulheres negras, indígenas, lésbicas e rurais (MATOS, 2010; MENUCI,2017).

Embora o movimento feminista tenha trazido inúmeros benefícios para as mulheres, principalmente no que se refere aos seus direitos e liberdade, outras vertentes precisam ser analisadas para que a equidade seja alcançada. As experiências de mulheres negras, pobres, operárias, trans, entre tantas outras, precisam ser foco de intervenções voltadas para o alcance de melhores condições de existência, na garantia de direitos e qualidade de vida (CRENSHAW, 2000). É, portanto, na clínica que estaremos também em contato direto com essas vivências e, por isso, faz-se necessário compreender de forma crítica as diversas manifestações de opressões presentes na sociedade, promovendo o empoderamento dessas mulheres.

Algumas autoras negras trazem luz ao conceito de Interseccionalidade no movimento feminista, evidenciando uma nova perspectiva de análise das experiências de mulheres. Davis (2008) discute o conceito a partir da compreensão de que Interseccionalidade dá início a um processo de descoberta, que confronta a realidade, em que não há uma regra que orienta a análise einvestigação feminista, possibilitando que haja uma sempre uma forma mais criativa, responsável, crítica e reflexiva de se investigar as hipóteses feministas.

Gonzalez (2011) ressalta a necessidade de se discutir o feminismo latino-americano a partir de uma perspectiva que considere sua pluralidade racial e cultural, de modoque se ultrapasse uma concepção masculina e branca de dizer sobre difícil a realidade vivenciada por muitas mulheres não-brancas. Dessa forma, acrescenta-se a ideia de que a formação de espaços de interseccionais possibilita principalmente a produção de conhecimento a partir de perspectivas que articulam diferentes marcadoressociais e identitários.

Carla Akotirene, em seu livro “O que é Interseccionalidade?” compreende o conceito como uma forma de perceber quais são as pessoas que são constantemente atravessadas por vias opressoras. A autora entende que a Interseccionalidade analisa as condições às quais as mulheres são colocadas, visto que seus corpos e suas experiências estão marcados por condições estruturais, compreendidas como sendo “repetidas vezes colonialistas, estabilizadas pela matriz de opressão, sob a forma de identidade” (AKOTIRENE, 2018, p. 38-39).

Nesse sentido, a prática clínica não pode ser neutra e excludente da experiência social de mulheres permeadas pelo movimento de opressão, vivenciadas pelos atravessamentos de classe social, raça, identidade de gênero e orientação sexual. Cada mulher carrega em si uma vivência única que, ao ser compreendida de forma empática e crítica, pode possibilitar uma prática de acolhimento e empoderamento. O empoderamento que aqui tratamos, aproxima-se da análise de Joice Berth em seu livro “O que é empoderamento?” (2018), que propõe a compreensão do termo como instrumento de emancipação política e social de sujeitos, numa atitude de enfrentamento da opressão e equalização de existências em sociedade.

A autora fundamenta sua concepção de empoderamento segundo o pensamento de Cecília M. B. Sardenberg e Patrícia H. Colins, que compreendem o empoderamento como um processo que se inicia internamente pela tomada de consciência e assertividade individual em direção ao externo, a partir dos movimentos de resistência e mobilização coletiva e do desenvolvimento de suas potencialidades para o enfrentamento do sistema de opressão. O empoderamento, portanto, caminha rumo à transformação das forças de poder que marginalizam as mulheres (BERTH, 2018).

Trazemos aqui uma citação da obra que expande a análise sobre empoderamento e contribui para uma compreensão profunda e importante do conceito, em que a autora diz (BERTH, 2018, p. 14): “Quando assumimos que estamos dando poder, em verdade, estamos falando na condução articulada de indivíduos e grupos por diversos estágios de autoafirmação, autovalorização, autorreconhecimento e autoconhecimento de si mesmo e de suas mais variadas habilidades humanas, de sua história, principalmente, um entendimento, sobre a sua condição social e política e, por sua, vez, um estado psicológico perceptivo do que se passa ao seu redor.

Assim sendo, falar de uma prática de empoderamento requer uma extensa compreensão das diversas vertentes de opressão que complementam a questão de gênero, evidenciando não apenas a estética no movimento de “dar poder”, mas seu caráter social e político, que localiza as mulheres numa experiência de valorização de si mesma e daquelas características que foram marginalizadas socialmente, desenvolvendo seu potencial de resistência diante dos sistemas de opressão. Ao adotar uma prática clínica que humaniza e empodera, assume-se um compromisso social com a existência da grande quantidade de mulheres que foram invisibilizadas pela sociedade, em detrimento da manutenção de poder das classes hegemônicas.

O resgate dessas vivências subjetivas como parte de um contexto aliado a uma prática humanizada e do afeto, que compreenda as estruturas de opressão social podem, assim, possibilitar um olhar de não culpabilização e não patologização da experiência da mulher, cujo sofrimento pode ter como causa a opressão (TIMM, PEREIRA e GONTIJO, 2011). Nas palavras de Nise da Silveira, complementamos que “O que melhora o atendimento é contato afetivo de uma pessoa com a outra. O que cura é a alegria. O que cura é a falta de preconceito”. Faz-se, portanto, fundamental que adotemos uma prática do afeto e da crítica, do acolhimento do sujeito e de tudo que compõe sua história de vida.

Referências

AKOTIRENE, C. O que é interseccionalidade. 1ª edição, Belo Horizonte-MG: Letramento: Justificando, 2018.

BERTH, J. O que é empoderamento. 1ª edição, Belo Horizonte-MG: Letramento: Justificando, 2018.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos feministas, ano 10, p. 171-188. 1 semestre 2002.

DAVIS, Kathy. Intersectionality as buzzword, a sociology of science perspective on what makes a feminist theory successful. Feminist Theory, vol.9(1), 2008, p. 67-85.

GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo Afro-Latino-Americano”. Caderno de Formação Política do Círculo Palmarino, n. 1, p. 12-20, 2011.

MATOS, M. Movimento e teoria feminista: é possível reconstruir a teoria feminista a partir do sul global? Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v. 18, n. 36, p. 67-92, jun. 2010.

MENUCI, J. M. Uma história do feminismo no Brasil. Caderno Espaço Feminino – Uberlândia-MG – v. 30, n. 2 – Jul./Dez. 2017 – ISSN online 1981-3082.

PINTO, C. R. J. Feminismo, História e Poder. Revista Sociologia Política, Curitiba, v. 18, n. 36, 2010, p.15-23.

SARTI, C. A. O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Estudos Feministas, Florianópolis, 12(2), 2004.

TIMM, F. B.; PEREIRA, O. P. & GONTIJO, D. C. Psicologia, Violência contra Mulheres e Feminismo: em defesa de uma clínica política. Psicologia política, 11( 22), p. 247-259, 2011.

Bianca Costa Medina, graduada em Psicologia pelo Centro Universitário Unifaminas – Muriaé/MG, pós-graduada em Arteterapia pela Faculdade Única – Ipatinga/MG e atualmente é Mestranda em Psicologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) – Niterói/MG. Atua como Psicóloga da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) em Cataguases/MG e também como Psicóloga Clínica pela abordagem Junguiana.