Docência versus Pandemia: a afetividade na ressignificação  da prática docente

Docência versus Pandemia: a afetividade na ressignificação  da prática docente

Conexão com especialista #09 Polyana Moroni

(…)As crianças têm necessidade de pão, do pão do corpo e do pão do espírito, mas necessitam ainda mais do seu olhar, da sua voz, do seu pensamento e da sua promessa. Precisam sentir que encontraram, em você e na sua escola, a ressonância de falar com alguém que as escute, de escrever a alguém que as leia ou as compreenda, de produzir alguma coisa de útil e de belo que é a expressão de tudo o que trazem nelas de generoso e de superior(…)” (Pedagogia do Bom Senso. P.104 – 105)

Este texto inicia-se com uma citação da obra do pedagogo Célestin Freinet ao qual descreve que as crianças necessitam de pão e de rosas, um simbolismo que de forma análoga refere-se ao conhecimento e ao afeto, respectivamente. O pão do espírito, que você chama de instrução, conhecimentos, conquistas técnicas, esse mínimo sem o qual corremos o risco de não conseguir a desejável saúde intelectual e também de uma relação de afetividade. Essa é uma questão que precisa de um olhar crítico nesse período de pandemia, pois o educando necessita, mais do que nunca, do acolhimento do seu professor, mesmo que distantes; seja através de uma janela de Windows, da tela de um celular, de um simples telefonema ou até mesmo de uma entrega de material. Sabemos, porém, das realidades distintas, das condições sociais de cada família dos educandos, pois, infelizmente, há uma enorme lacuna entre as diferentes redes de ensino e por isso é imprescindível uma ressignificação urgente na Educação, não apenas no processo de ensino- aprendizagem, de reformulação conteudista, mas das relações emocionais, de um vínculo afetivo entre o professor e seu aluno. Daí a importância da rosa, tão brilhantemente descrita por Freinet. A sociedade, de um modo geral, necessita, urgentemente,  da empatia das pessoas! As atitudes fazem toda a diferença assim como as palavras de incentivo e apoio.

Atuar na área educacional nunca foi  tarefa fácil e ao analisarmos os últimos  acontecimentos desde o início do ano de 2020, constatamos uma dificuldade ainda maior. Quando termina um ano letivo, o professor logo idealiza planos para  o ano seguinte,  reflete sobre novas possibilidades, novas aprendizagens, novas reflexões, mas jamais  imaginou-se  que 2020  seria um ano para  desafios  de enormes proporções, não somente no contexto educacional, mas em todos os setores a nível mundial. Quem diria que um vírus pudesse  mudar radicalmente a forma de relacionamento humano e que , da noite para o dia, o distanciamento social se tornou a melhor maneira de preservação da vida. De repente, tudo parou diante de uma grande catástrofe, mas se analisarmos a nossa  história , veremos muitos acontecimentos que ocorreram no decorrer de milhares de anos e quando acontece na sua geração, é amedrontador.Mas não precisamos nos desesperar! O ser humano tem a tendência de se  adaptar, mesmo demorando um certo tempo para compreender toda a situação, a adaptação  acontece, isto é fato. Piaget, em seus estudos, aponta que quando um indivíduo se depara com  algo que não compreende, de certa forma aquilo incomoda, causa um desequilíbrio e  para voltar a ter este equilíbrio é preciso assimilar  a situação, modificar os conhecimentos prévios  e  acomodá-los. No contexto educacional, sabíamos, enquanto educadores, que muitas mudanças ocorreriam a partir do ano de 2020, pois a BNCC veio com propostas de mudanças significativas para o período, mas não tão desafiadoras quanto a pandemia. Neste período caótico,  as escolas tiveram que adotar estratégias para continuar com o processo de ensino – aprendizagem, sabemos porém , até no atual momento, não está sendo fácil. Entre os docentes e discentes, a  ansiedade existe, em alguns, com mais excesso, em outros, com menor intensidade. A pergunta  que não quer calar: quando retornaremos presencialmente? Não sabemos ainda, mas uma coisa é certa, a partir de agora, a Educação não será mais a mesma. É tempo de nos prepararmos para o “novo normal”. Tempos atrás, grandes estudiosos diziam que a tecnologia deveria ser uma aliada na sala de aula, novas tendências no ensino, porém parecia que tudo isso estava distante de nós, que era apenas uma visão futurista, 2030… 2040… quando nos referíamos à educação básica; pois no ensino superior, as aulas no módulo EAD  já eram  realizadas com êxito.

Quando pensamos na prática docente, vários conceitos são apontados, pois afinal de contas, o que é ser professor? Ser professor é mais do que ensinar conteúdos, é olhar para o aluno e transmitir confiança; basear-se na Teoria Cognitiva de Piaget e  perceber que cada criança tem seu tempo de maturação; é incorporar o humanismo de Paulo Freire e transformar a escola na alegria do saber, mesmo sendo dentro de uma realidade cheia de conflitos. Ser professor é ter a sensibilidade  para compreender e saber estimular as diversas inteligências em seus alunos. Um dos princípios de Howard Gardner é atender às diversidades, ou seja, mostrar que todos podem aprender e desenvolver diferentes habilidades, de forma que suas inteligências sejam estimuladas de forma individual. Até então, todos esses conceitos, de um modo geral,  eram visíveis dentro de uma sala de aula. Mas quando falamos de adaptação e afetividade, esses conceitos precisam ser aprofundados e nos cabe a seguinte reflexão: O que é ser professor em plena pandemia? É ressignificar  a prática docente reiventar-se,  é buscar dentro da realidade de cada  educando  um reencontro não só com a escola, mas o    restabelecimento  de um vínculo afetivo, principalmente com as crianças da Educação Infantil e com os alunos  dos anos iniciais do Ensino Fundamental que necessitam de um olhar mais  atento do professor, “(…) é de tudo isso que vive a criança, normalmente alimentada de pão e conhecimentos, é tudo isso que a engrandece e a idealiza, que lhe abre o coração e o espírito. A criança precisa de pão e de rosas.(…).”

Para que ocorra a ressignificação da prática docente,  mais do que nunca, os nossos educadores necessitam da colaboração e motivação de seus diretores, supervisores e das famílias. Essa tríade é um suporte de suma importância que visa a um único objetivo: a aprendizagem significativa com estabilidade   emocional para todos os educandos.

Segundo Paulo Freire, o conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma ação transformadora  sobre a realidade. Demanda uma busca constante! Implica em invenção e em reinvenção. É exatamente assim que devemos pensar e agir como profissionais da educação para que essa ressignificação aconteça, organizar rotas , direcionar  o leme  e seguir adiante.

Polyana Moroni Ferreira Gonçalves – Graduada em Pedagogia ( FIC/Grupo Unis), Pós – Graduada em Neuropsicopedagogia (FIC/Grupo Unis), Supervisora do Ensino Fundamental do Centro de Educação Florescer