Muito além do dezenove de abril

Muito além do dezenove de abril

Conexão com especialista #07 – Inácio Manoel Neves Frade da Cruz

Ir ao encontro e refletir a respeito de nossos irmãos indígenas, não pode ter como principal mote a crença na possibilidade de conservá-los numa espécie de câmara fria, como se as tradições, cada qual a seu modo e tempo, não se reinventassem. Por outro lado, reconhecer a dignidade e garantir o direito à vida (como bem entenderem) para as populações sobreviventes do genocídio iniciado no século XVI, deveriam pautar nossos atos, quer sejam políticos ou em quaisquer outras instâncias. No contexto de pandemia, conexo à necropolítica, ao fascismo e impregnado por perspectivas negacionistas é importante marcar minha posição na direção oposta dos conservadores e das narrativas que associam explícita ou implicitamente os representantes, sobretudo, dos remanescentes dos povos originários e dos descendentes de africanos a indivíduos moral e culturalmente inferiores em relação ao tipo ideal europeu.

Do ponto de vista da educação pública é essencial preencher o vácuo entre oconhecimento produzido pelo colonizador e a história vivida pelos povos perseguidos e expropriados de suas terras. Oferecer a oportunidade para que as crianças e adolescentes possam desconstruir estereótipos e compreender com outros olhos os saberescompartilhados pelos indígenas, pode se configurar como um instrumento de mudança e aprimoramento social, ecológico e, obviamente, cultural. Assim como as que foram completamente dizimadas, lembremos de que cada uma das etnias ainda viventes possuimedicina própria (e não uma rede de charlatanismo, deslegitimada pela medicina hegemônica), nome próprio (e não aquele atribuído pelo branco), território próprio (cuja extensão ocupada anteriormente à invasão do branco/colonizador era, invariavelmente,maior do que a atual), história própria (que é acessível a todos, sem a necessidade de diploma), costumes próprios (vide, por exemplo, a nação yanomami), concepções de natureza e cultura próprias (Philippe Descola nos ensina sobre “outras naturezas, outras culturas” idealizadas pelos cree e os achuar). Em suma, é primordial constatarmos que a história escrita pelos colonizadores, regulada por juízos de valores tendo o europeu como contraponto, é incapaz de se aproximar da cosmologia experimentada pelos indígenas. Precisamos deixá-los falar. E ouvi-los atentamente.

Como costuma destacar o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os povos originários, como os Arawe, Bororo, Maxacali, entre outros, são dotados de uma impressionante capacidade de suportar agressões físicas e têm sobrevivido a ataques de todos os tipos e feitios. O capitalismo, desconhecedor dos limites do contentamento, além de viabilizar o roubo de suas terras e riquezas, precisa também subtrair suasmemórias, suas histórias, seus deuses e suas línguas. Um exemplo desse projeto que procura tornar invisível qualquer sobrevivência relacionada aos ameríndios, diz respeito às famílias do grupo Puri. Em diversas fontes de pesquisa, eles são dados como extintosdesde o século XIX. Todavia, em Minas Gerais, existem atualmente pelo menos duas comunidades localizadas na Serra da Mantiqueira (comunidade de Araponga e Padre Brito), cujos integrantes reivindicam a pertença ao grupo puri. Por que não reconhecer?Alguma relação com a tríade: capitalismo, Brasil e racismo estrutural?

Na engrenagem capitalista sob a qual estamos atarraxados, a empreitada de silenciamento e desmanche das culturas indígenas, ainda hoje, possui no trabalho missionário das religiões cristãs um aliado muito combativo. Associam-se essas pessoas a espectros fantasmagóricos que se retardaram em relação à santa obrigação de “subir” a um fictício patamar mais graduado da evolução humana, para pisar num arremedo da terra sem males, onde só cabe o monoteísmo e não há lugar para pensar na alma da jaguatirica, nem em nada que o valha. Quando os representantes das autoridades mantenedoras do poder conseguem livrá-los (sob o seu ponto de vista) das suas mazelasculturais e, literalmente, catequizá-los, eles penetram o mundo real, agora sob a forma de espoliado, de semianalfabeto, de último na fila do SUS, de dizimista, enfim, vão engrossar as fileiras no grupo sobre o qual o sociólogo Jessé Souza chamou (provocativamente, e não por deboche) de ralé estrutural.

Precisamos ajudar a desconstruir e reorientar as representações tipificadoras que se fixam no senso comum, inferiorizando o mundo indígena. Se necessário for, inventemos. Se não der, usemos todas as ferramentas possíveis que as instituições de ensino dispõem no momento. Por não conceber a educação como uma mercadoria e sim como um bem coletivo, não consigo enxergar nada melhor do que um conjunto depolíticas públicas, elaboradas com vistas ao longo prazo, para que possamos promoveruma formação docente de excelência e perseguir com uma pegada mais firme adescolonização dos currículos. Como resposta ao projeto neoliberal de desmanche e entrega do setor para o capital privado, o aumento em investimentos na educação pública é condição para a implementação de uma polifonia de habilidades e conhecimentos, aí incluídos os indígenas, e, em última análise, para a ocupação multicultural dos bancos escolares.

Ao finalizar, insisto em conectar a pauta da identidade indígena com os saberes escolares e, para tal, trago à baila a lei 11.645/08, compreendida como o desdobramento de importantes lutas políticas que a precederam. Se é que um dia será possível, antes de desativarmos por completo esses mecanismos de opressão material e ideológica,assentados na linguagem e ainda vigentes/inabaláveis na educação brasileira, precisamos fazer valer cada espaço que nos é permitido ocupar. Porém, repito, como pré-requisito a qualquer iniciativa é indispensável certificar a sua dignidade e, principalmente, deixá-los em paz. Não faz e nunca fez o menor sentido, por exemplo, o combate de autoridades civis e missionários que procuram intervir na cultura dos povosayahuasqueiros (cujo emprego da ayahuasca é concebido como substância medicinal e não uma forma exótica ou alternativa de se drogarem). Necessitamos destinar todas as nossas energias para a construção de um conhecimento em que os próprios indígenas tenham voz. Advirto que a arte de entende-los não é fácil para nós, uma vez que ignoramos os fios simbólicos que tecem e estruturam a sua cosmopolítica, a sua geografia sagrada, em última análise, o seu trato com a mãe terra, com o mundo visível e invisível. A equação é simples: desde que eles possam e queiram, devemos estar atentos quando nos ensinarem quem são e como vivem.

Inácio Frade possui Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Mestrado e Especialização em Ciência da Religião também pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialização em História do Brasil pela FAFIC / FIC; Graduação em História pela pela FAFIC / FIC; Atualmente é professor na UEMG, Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Leopoldina e Faculdades Sudamérica de Cataguases.
Link para acesso ao currículo do autor: http://lattes.cnpq.br/8669649635166502